Esse problema, que freqüentemente se apresenta, é o de cobrir uma superfície plana com
regiões poligonais. Essa cobertura, chamada mosaico do plano, deve ser feita de modo que não
haja nem lacunas nem superposições e através dela podem ser obtidos interessantes e bonitos
desenhos como os mostrados abaixo.
Para que possamos nos concentrar mais na Matemática do que no aspecto artístico dos
mosaicos, vamos restringir nossa discussão a coberturas formadas exclusivamente por polígonos
regulares. Além disso, duas condições serão impostas aos mosaicos aqui estudados: a) se dois polígonos regulares intersectam-se, então essa interseção é um lado ou um vértice
comum; b) a distribuição dos polígonos regulares ao redor de cada vértice é sempre a mesma. Com essas restrições estamos eliminando coberturas do tipo:
A da esquerda não satisfaz a) e a da direita não satisfaz b). Todos nós temos familiaridade com os mosaicos formados por polígonos regulares de um
mesmo tipo: triângulos equiláteros, quadrados ou hexágonos regulares.
Seriam esses os únicos polígonos regulares que pavimentam o plano? Para respondermos a essa
pergunta, precisamos conhecer a medida em graus, Tabela I
Para que se tenha um mosaico do plano formado exclusivamente por polígonos regulares
Essas soluções nos dão exatamente os mosaicos apresentados anteriormente e consistem em
distribuir ao redor de cada vértice ou 6 triângulos equiláteros, ou 4 quadrados ou 3 hexágonos
regulares. Tais coberturas são chamadas mosaicos regulares do plano e são indicadas pelas sugestivas
notações O que acontece se combinarmos polígonos regulares não necessariamente congruentes entre si?
Observamos inicialmente que, embora tais polígonos regulares não tenham obrigatoriamente o
mesmo número de lados, as condições impostas em nossa definição de mosaico exigem que os
lados de todos os polígonos regulares que comparecem na cobertura tenham o mesmo
comprimento. Um primeiro passo para responder à questão acima é procurar todas as possíveis combinações
de polígonos regulares que podem ser arranjados ao redor de um vértice comum de modo que
não haja nem lacunas nem superposições.
Já o mesmo não ocorre para um octógono regular, um hexágono regular e um triângulo
equilátero ou, ainda, para um octógono regular, dois quadrados e um triângulo equilátero.
Sendo m o número de polígonos regulares ao redor de um ponto, temos,
evidentemente,
Para acharmos as soluções inteiras e positivas dessa equação supomos, sem perda de Façamos Procedendo analogamente para Tabela II
A classificação das possíveis combinações de quatro polígonos regulares ao redor de um vértice
comum corresponde à determinação das soluções inteiras e positivas da equação: Tabela III
Aqui surge a seguinte questão: Os arranjos abaixo desenhados devem ser considerados iguais
ou diferentes?
Como o da esquerda possui um eixo de simetria enquanto o da direita tem dois eixos de
simetria, vamos considerá-los como distintos, ou seja, a solução Da mesma forma, as soluções Analogamente, a classificação das possíveis combinações de cinco polígonos regulares em torno
de um vértice comum de modo que não haja nem lacunas nem superposições corresponde à
determinação das soluções inteiras e positivas da equação
As únicas soluções inteiras e positivas dessa equação, com Tabela IV
Como Finalmente, a classificação das possíveis combinações de seis polígonos regulares em torno de
um vértice comum nos leva à determinação das soluções inteiras e positivas da equação cuja única solução é As considerações feitas até agora nos permitem concluir a existência de vinte e uma
combinações de polígonos regulares que podem ser arranjados ao redor de um vértice comum de
modo que não haja nem lacunas nem superposições. A questão crucial que agora surge é sabermos quais das combinações acima podem ser
estendidas de modo a obtermos um mosaico do plano. Por exemplo, considere o arranjo
A figura à esquerda, a seguir, indica que um arranjo envolvendo um triângulo equilátero e dois
outros polígonos regulares não pode ser estendido de modo a formar um mosaico do plano a
menos que os outros dois polígonos regulares sejam congruentes, isto é,
Analogamente, um arranjo que envolve um pentágono regular e dois outros polígonos regulares
não pode ser estendido de modo a formar um mosaico do plano a menos que os outros dois
polígonos regulares sejam congruentes. Concluímos que Com relação à Tabela III, além de
Assim, das vinte e uma possíveis combinações de polígonos regulares, dez delas foram
eliminadas por não se estenderem. As onze restantes fornecem os possíveis mosaicos do plano,
sendo três deles os mosaicos regulares (figuras na página 2), e os demais, chamados mosaicos
semi-regulares, desenhados a seguir.
A existência dos mosaicos regulares já era conhecida pelos antigos pitagóricos da Matemática
grega. A primeira pessoa a exibir os mosaicos semi-regulares foi J. Kepler, em um trabalho
publicado em 1619, no qual está o seguinte resultado, que resume nossa discussão: Teorema de Kepler - Existem exatamente onze maneiras de se cobrir o plano
utilizando-se exclusivamente polígonos regulares sujeitos às condições a) e b)
anteriormente descritas.
Referências bibliográficas:
[1] Alsina, C.e Pérez, R., - Simetria dinámica. Madrid: Editorial Síntesis, 1989. [2] Barbosa, R.M. - Descobrindo padrões em mosaicos. São Paulo: Atual, 1993. [3] Martin, G.E. - Transformation geometry - An introduction to symmetry. Springer Verlag, 1982. [4] O' Daffer, P.G.e Clemens, S.R. - Geometry: an investigative approach. Addison Wesley, 1976. |